sábado, 15 de abril de 2017

CAMPINAS SENTE SAUDADE: Gilda



O cartaz em frente ao cinema anunciava “Nunca houve uma mulher como Gilda”. Era o lançamento do filme Gilda, uma produção estadunidense de 1946 estrelada pela atriz Rita Hayworth, que em 1947 chegava a Campinas para apresentar ao público a história de uma mulher lendária, que segundo diziam, só precisava tirar uma das luvas para parecer que fazia um strep tease completo. Gilda, o papel dramático interpretado por Rita Hayworth que tanto impressionou os críticos de cinema de época, também impressionou uma mulher simples que vivia em Campinas, Geovina Ramos de Oliveira, que foi assistir à película e saiu do cinema se sentindo a própria Gilda.

 
 

Gilda não gostava de revelar suas origens, nem quem eram seus parentes. Sempre dizia “O Mundo é Meu”, quando tentavam descobrir algo a respeito de sua vida. “Sou daqui mesmo, porque gosto daqui”, respondia às pessoas. Sequer a idade revelava. Mas, revelou ser nordestina. Segundo relatos tinha família na cidade de Santos. Era uma mulher que foi casada e teve três filhos. Seu marido trabalhava em uma banca de jornal.

 
Andava pelo centro de Campinas usando faixas de miss e rainha, sempre sozinha. Vestia peças coloridas, usava batom vermelho nos lábios, chapéus e até estolas de pele.  Matava a fome e a sede pelos bares. Poderia estar no Bar Voga saboreando um delicioso pastel, ou tomando um suco de frutas na Casa de Vitaminas mais adiante. Exibia como ninguém uma imensa alegria de viver, desfilando como uma verdadeira estrela nas ruas do centro, seu palco iluminado. Gostava de dançar em frente às enormes caixas de som da Livraria Brasil, na Rua Barão de Jaguara.
 
 
Registro fotográfico de autoria de Gilberto de Biasi
 
 
 
Segundo relatos, aos domingos à noite ela sempre desfilava pelo Jardim Carlos Gomes, quando a banda tocava no Coreto. Dizem que era uma mulher patriota, gostava de cantar o Hino Nacional quando estava enrolada na bandeira do Brasil. Em todo desfile de 07 de setembro estava presente com sua faixa. Demonstrava seu amor por Campinas com sua presença nos eventos importantes da cidade, aparecendo muitas vezes no Teatro Municipal e no estádio Brinco de Ouro da Princesa, na década de 60, quando vestia a faixa de miss bugre. Segundo relatos ainda, se fosse chamada de tostão, logo dizia indignada um palavrão.

 Gilda era uma mulher comum, sem instrução, mas carregada de sensibilidade. Era excêntrica, vaidosa, cuja alegria contagiava a todos. Receber um elogia era uma de suas grandes alegrias, mas caso alguma jovem chamasse mais atenção que ela, ficava muito brava. O povo campineiro respeitava Gilda.


No dia 22 de abril de 1950, uma notícia do jornal Correio Popular destacou “Desaparece da fisionomia da cidade uma de suas figuras populares. A Gilda foi levada para o Hospital Franco da Rocha (Conhecido como "Hospital dos loucos"). Lá continuará cumprindo o seu destino e continuará pensando que é Gilda”.  Mas, ela voltou e continuou vivendo como Gilda.



 
 
 
 
Além de acreditar ser uma estrela de cinema e exibir suas faixas, Gilda também afirmava ser amante do presidente Getúlio Vargas e noiva do prefeito de Campinas Orestes Quércia, eleito em 1968. Quércia se solidarizou com a condição de Gilda e com generosidade doou a ela uma casa popular, na Vila Rica, para que pudesse morar. Foi o que informou os jornais campineiros da época.

 
Ela dizia-se também viúva do cantor Francisco Alves, o famoso Rei da Voz, o qual morreu de desastre automobilístico na Via Dutra, em 27 de setembro de 1952. Por isso, não gostava quando algum fã se referia aos nomes de cantoras famosas da época, como Emilinha Borba e Ângela Maria, pois adorava mesmo era Francisco Alves. Às vezes, xingava quem fazia tais referências, mas outas vezes reagia docemente cantando canções de Maysa. Também cantava canções como “I love you” e “Kiss me”, quando se sentia uma estrela como a Gilda protagonizada por Rita Hayworth.

 

Gilda morreu em 1974, aos 74 anos de idade, depois de ter sido internada no Hospital Mário Gatti.

 






Curiosidades sobre Gilda:

 

- A história de vida de Gilda foi muito apreciada e inspirou a obra o artista plástico Egas Francisco, que desde sua infância, quando a descobriu em uma banca de jornal, ficou fascinado e nunca mais deixou de retratá-la.

 
 

- Augusto Sevá dirigiu um documentário sobre Gilda, que o Museu de Imagem e Som de Campinas preserva junto de outros trabalhos, como Fala Ó, documentário dirigido por Cristina Cavotto e roteirizado por Maurício Squarisi, sobre a vida do popular Mané Fala Ó.

 
- Em 2001, durante o Segundo Encontro Internacional “Saber Urbano e Linguagem”, com o acaso e definição “A vida na cidade”, promovido pelo Laboratório de Estudos Urbanos da Unicamp, Gilda foi lembrada em uma apresentação de Regina Polo Muller.

 
 


- Em 2014, uma exposição de bonecos feitos de papel marchê que homenageava personagens da história de Campinas, durante a semana do aniversário da cidade, trouxe a lembrança em forma de boneca da Gilda. O trabalho foi realizado por crianças do Projeto Vivendo Campinas e a exposição ocorreu na sede da ONG União Cristã Feminina (UCF), localizada na Rua Olívio Manuel de Camargo, 291, no Jardim Santa Mônica.

 


 

Fontes:

 






 
 
ALEXANDRE CAMPANHOLA

Nenhum comentário:

Postar um comentário