sexta-feira, 14 de abril de 2017

CAMPINAS SENTE SAUDADE: Mané fala Ó




Em uma realidade em que cumprimentar um desconhecido ou mesmo um amigo na rua tornou-se uma atitude incomum, imaginem alguém que nos abordasse nas ruas do centro de Campinas inesperadamente, passasse a nos seguir desde então com um pedido misterioso, insistente e simpático:  “Fala ó para mim!”. É bem verdade que a preferência por este tipo de atenção era voltado às mulheres de Campinas, mas foi assim que João Lopes Camargo, mais conhecido como Mané fala Ó, tornou-se uma figura conhecida do centro campineiro e querida também, em uma época em que as relações humanas eram mais próximas e frequentes.

 
Registro fotográfico de autoria de Gilberto De Biasi
 
 
 
Mané fala Ó começou a circular pela cidade de Campinas por volta dos anos de 1950, aparecendo constantemente nas ruas da Vila Industrial. Desde daquela época até o fim de sua vida, era conhecido pela reação que tinha ao ver uma mulher passar pela rua, sobretudo se fosse bonita, pedindo com certa insistência “Ô menina, fala Ó pra mim”. Muitas mulheres tinham medo dele, porque as seguia até que recebesse a resposta esperada.



 
 
Segundo relatos, ele foi vítima de uma doença conhecida como “Doença do sétimo dia”, que deixou sequelas e afetou, decerto, seu estado mental. Ainda segundo relatos, morava com seu padrinho, o senhor Bianchi, na Rua Diogo Prado, no bairro Cambuí. Era uma pessoa educada, ingênua, prestativa. Fazia pequenos favores para comerciantes do centro de Campinas, até que um dia, através de uma vaquinha, compraram-no uma bicicleta.

 
 
 

De tão querido que era, Mané fala Ó entrava e saia de onde bem entendesse, no centro campineiro e seus arredores. Também trabalhava. Quando morava na casa de uma tia no bairro Taquaral, dona Joana, e dividia o quarto com um primo, Anderson, para ter dinheiro e se sustentar ganhava trocos de alguns conhecidos, vendia jornal de loja em loja, e assim, sempre de bem com a vida, só voltava para casa na hora de dormir.

 
Mané fala Ó circulou por muitos anos com sua inseparável bicicleta preta pelo centro de Campinas. Conhecia a cidade como ninguém e sempre demonstrou em sua vida um comportamento honesto e inofensivo.



Mané fala Ó e Antônio Francisco dos Santos, o Politizador
Registro fotográfico de autoria de Carlos Bassan

 
Dizem que quando já estava muito idoso, Mané fala Ó já não fazia mais seu pedido costumeiro, apenas ficava batendo moedas nos postes de placas de ônibus dos terminais. Segundo relatos, eram as pessoas que lhe faziam então aquele pedido que se tornou sua voz em meio à população campineira.


Na noite do dia 22 de dezembro de 2003, aos 72 anos de idade, quando já passava das oito horas da noite, Mané fala Ó foi atropelado por um Monza, no momento que atravessava a Avenida Mirandópolis, na Vila Pompeia. Foi socorrido pelo próprio motorista, e levado ao pronto-socorro do Hospital Mário Gatti, mas não resistiu aos ferimentos. Naquela noite, às nove horas e dez minutos, aproximadamente, Campinas perdeu uma figura folclórica e querida de suas ruas. No Natal daquele ano, a alegria e inocência de Mané fala Ó foi lembrada com muita saudade.

 
 
 
 
 
 
Curiosidade sobre Mané fala Ó:

 
- Na década de 80, um grupo de música paulista denominado Grupo Rumo compôs uma música inspirada nesta querida figura campineira. Eis a música:
 
 

- Na década de 90, Ele chegou a ser enredo da escola de samba Rosas de Prata.

- Em 2010, foi aprovada na Câmara Municipal de Campinas proposta pelo vereador Antônio Francisco dos Santos, o Politizador, uma lei que denominava a Semana Municipal do Transito com o nome de Mané Fala Ó, em homenagem à saudosa figura popular campineira que foi vítima de atropelamento no trânsito.
 



 

 

Fontes:

 


Fotografia de Gilberto De Biasi – Mané Fala Ó jovem




ALEXANDRE CAMPANHOLA

Um comentário:

  1. Que incrível. Minha mãe contava essas histórias do Mané fala ó para mim! Bom relembrar

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